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Cristina Blanco e sua missão El Agitador Vortex

Cristina Blanco e sua missão El Agitador Vortex

 

Vanilton Lakka[1]

 

 

A espanhola Cristina Blanco participou da edição 2016 do Interação e Conectividade em Salvador, ou melhor, o IC, respeitemos a tradição baiana de tudo virar sigla. El Agitador Vortex foi o trabalho apresentado no teatro Gregório de Matos.

O histórico de Blanco informa que ela estudou Arte Dramática e Interpretação Gestual na RESAD, em Madri, realizou vários workshops de criação, dança e performance com criadores como Juan Dominguez, Jérôme Bel, Gary Stevens, Barbie Asante, Ana Buitrago e Helena Córdoba, além de atuar como atriz e cantora. O seu trajeto formativo e de atuação dá pistas de quais elementos a artista é capaz de acionar e manusear, e talvez por isso, suas criações estejam em um lugar de fronteira capaz de produzir dialogo com públicos diversos, oriundos de territórios variados como a Dança, o Teatro, a Performance, e mesmo, um indivíduo comum e curioso que não se reconhece em nenhum dos territórios mencionados.

Cristiana é uma velha conhecida do público brasileiro, já participou de festivais como Panorama-RJ e do ENARTCI em Ipatinga-MG apresentando trabalhos como cUADRADO_fLECHA_pERSONA qUE cORRE (2004) e Caixa Preta – Caja Negra (2006) em parceria com a brasileira Claudia Muller.

Estas três experiências dão pistas contundentes sobre o modus operandi da artista, sinalizando a quais temas e estatutos cênicos ela recorre com alguma frequência.  Percebe-se também, a existência de um processo artístico no qual o percurso processual acusa uma alternância de cores e sabores em uma escala de subida e intensidade no numero de elementos postos em cena, assim como a habilidade em manipulá-los.

 

Desnudando o filme

 

Em El Agitador Vortex, o mote é a criação de um filme multigênero, no qual é possível reconhecer em um grande caldeirão elementos de filmes de terror a musicais, de artes marciais a comédias, e do qual, a intérprete faz surgir a encenação, ou seja, através do manuseio (literalmente manual) de técnicas de produção de filmes com cenários, maquetes e câmeras ao vivo. Um bom exercício seria ver a edição final do filme, pois há sim condições para tal, afinal a louca faz um filme ao vivo, e em tese, a obra cênica é o substrato da produção do filme e não o seu núcleo.

 

A escolha feita por Cristina para construir seu trabalho é no mínimo rara e com certeza incomum, pois utiliza o mecanismo comumente usado de expor os recursos para a construção da obra e como os mesmos são usados. Revela os segredos da linguagem com a função de produzir uma sensação de proximidade e afinidade da obra e do artista com o seu público. No entanto, os artistas que assumem essa perspectiva, na qual se desnuda o processo enquanto perspectiva estética, geralmente o fazem em seu próprio território, sua própria arte, sua matriz original e não em outra. Portanto, um ator o faz no teatro ou o coreografo o faz na dança, Cristina resolveu desnudar o cinema para fazer arte cênica. Essa decisão a coloca em um lugar raro.

Em Caixa Preta-Caja Negra (2006) há a elaboração constante de estados de tensão entre ficção e realidade, que refletem sobre o tipo de comunicação que se estabelece a partir da transmissão de uma informação. Neste trabalho, em tese, o público não assiste à obra, pois ele é informado previamente no saguão do teatro sobre o que vai acontecer no palco, e ao entrar no teatro, o púbico é informado que um espetáculo acabou de acontecer. Assim é instaurada a relação entre ficção e realidade, a obra é essa experiência.

Similar ao que aconteceu nesta edição do IC, mas com a diferença que em caixa preta – caja negra a operação é realizada com um espetáculo cênico, enquanto em El Agitador Vortex com um filme, guardadas as devidas proporções, o raciocínio é o mesmo.


O papel da repetição ou a repetição do papel

 

O rompimento entre os limites entre palco e platéia é uma marca da produção de arte cênica contemporânea, não necessariamente recente. Coreógrafos a tempos tem buscado estratégias para romper com a lógica da distância. Exemplo claro são obras de dança que são definidas pelos seus criadores como instalações-coreográficas. Não é o caso de El Agitador Vortex. Cristina Blanco passa ao largo de um formato como este, e apesar de dialogar com a tradição da Performance Art, joga diretamente com a oposição palco/platéia, fazendo dessa oposição uma unidade, uma cozinha na qual expõe ao público as vísceras da construção cênica e o modo de preparo.

Em El Agitador Vortex há pequenas doses de interação com o público, por exemplo, quando Blanco solicita ajuda para segurar uma parte do cenário ou quando usa alguém do público previamente definido para interagir com ela, caso da luta de espadas. Mas cabe observar o quão essa interação é leve, sutil e com poucos riscos, seja do público não compreender os comandos sugeridos pela artista colocando em cheque o projeto da obra, ou mesmo risco físico de acidentes com o público participante ou uma experiência de exposição cênica traumática.

O uso do recurso de preparar a cena na frente do público, manipulando os objetos e posicionando o cenário para por fim, apertar o play da câmera, em alguns momentos dá sinais de cansaço e deixa de produzir o efeito inicial de envolver o público, mas Cristina Blanco parece perceber quando surge esse momento de fragilidade na estrutura do trabalho, acionando outros elementos como a cena na qual canta e manipula o controlador de fumaça.

Pode-se dizer que Cristina Blanco continua o raciocínio dos trabalhos anteriores usando a dicotomia público/platéia, ficção/realidade e o desvelamento dos recursos compositivos ao vivo com pequenas doses de interação controlada, ou seja, ela repete, repete, repete e não repete. E é justamente aí, talvez, que more a potencia, na sua insistência e na intimidade criada com os elementos manuseados por ela em sua carreira, conseqüência da revisita constante a elementos e operações cênicas.    

Talvez o mais impressionante em El Agitador Vortex não seja a novidade, afinal outros trabalhos de Cristina Blanco ou mesmo a linhagem de artistas na qual ela teve contatos como Juan Dominguez e Jérôme Bel, já vem trazendo estruturas com soluções compositivas e escolha de elementos similares. Mas a quantidade de elementos e gatilhos cênicos que Cristina cria, organiza e manipula ao vivo é impressionante, resultando em um roteiro capaz de produzir envolvimento intenso, mesmo com públicos com pouco histórico de relacionamento com a arte contemporânea.

 

 

 

 

 

 

 



[1] Coreografo, intérprete, professor na graduação em dança da UFBA e doutorando do PPGAC-UFBA.

 



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