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O Facão, a Escuridão e o Portão

O Facão, a Escuridão e o Portão 

Vanilton Lakka

Hoje foi o primeiro dia do XXVI Painel Performático da Escola de Dança da UFBA, a intenção é mostrar aspectos do processo formativo que foi levado a cabo durante o semestre nas aulas. 

 

A programação contou com propostas que sugeriam discussões a respeito de temas como gênero, corpo, política e abordagens mais abstratos. Dentre as sensações, emoções e impressões causados houve uma oscilação entre sentimentos como amor, reconhecimento, ternura e felicidade, mas nenhum sentimento tocou mais os corações do que o medo.

 

O aluno Artur PiraMoura orientado pelo professor Lucas Valentim elaborou uma proposta na qual o público foi convidado a entrar na sala e ocupar um espaço circular, na sequência o intérprete começou a deslocar em volta do publico, emitindo sons vocais e que logo se tornaram gritos e urros. Em um segundo momento o intérprete recorreu ao uso de uma máscara na qual a única parte do rosto que ficava a mostra era a língua, e que ele tratava de manter em movimento constante e fora da boca.

 

No terceiro núcleo do trabalho Arthur foi até o portão e fez um gesto sugerindo que estava trancando todos dentro da sala, na sequência saiu de cena e voltou com um facão, com a peixeira em mãos seguiu deslocando entre as pessoas, sem toca-las, mas muito próximo ao público, algo que gerava expectativa a respeito do que aconteceria na sequencia, associado a isso, um sentimento foi ganhando intensidade, o medo. 

 

O gran finale do trabalho teve um elemento um tanto quanto óbvio, as luzes foram apagadas. Melhor, teria sido óbvio se o intérprete não tivesse sido capaz de criar um gráfico crescente de medo na grande maioria do publico. 

 

Ao final o sentimento de medo perdeu lugar para outro sentimento, a revolta, afinal Arthur havia sugerido ter trancado todos em uma sala, buscou um facão e por fim apagou a luzes, o que gerou pânico e insegurança do que viria a seguir. Absurdo!

 

Ao fim da apresentação o público se manteve na porta do teatro discutindo o que tinha acontecido, se era legitimo, se era artístico, se era legal, se era de mal gosto, podia ter sido só irresponsável. As opiniões se dividirão, mas era claro que os astros da noite foram o facão, o portão trancado e a por fim a escuridão. O protagonismo do uso desses elementos esconde outros como o contexto, afinal muito provavelmente a mesma apresentação em um país como a França atormentado com os últimos ataques terroristas  não teria chegado ao fim, mas mesmo no Brasil, um país sem ameaças de terrorismo, o Estado de medo que caracteriza uma sociedade contemporânea marcada pelo anonimato e pela imprevisibilidade das ações humanas faz a proposta de Artur ser no minimo arriscada. 

 

Mas será que o facão, a escuridão e o portão fechado são tão responsáveis pelo medo que o público sentiu? Eu prefiro acreditar que não, prefiro acreditar na competência de Artur como um jovem e talentoso interprete e criador. Acrescento ainda que creio que ele tenha sim, que rever, ajustar e modular o manuseio dos elementos que opta por usar em suas propostas, mas foi uma ótima estreia. Ou você sente mendo toda a semana assistindo uma performance de dança ou teatro?

 

Dentre os poucos coreógrafos que ousaram usar elementos que Artur lançou mão em sua proposta chamada Danse Macabra, destaca-se a produção de Marcelo Gabriel, criador mineiro que por anos assombrou as Artes Cênicas tupiniquins quebrando garrafas em cena e aproximando do público, ou caminhando com um taco de beisebol em obras com os sugestivos nomes como Menu Canibal e Prét-à-Porter de Viceras. Artur parece fazer escolhas que o aproximam de criadores que se interessam por afetar o público de um modo muito especifico.

 

 

Ao final da noite foi bom ver que o público não discutia o golpe, mas discutia o espetáculo de Artur, e era nítido, a noite que começou com frases como Jamais Termer, acabou com medo.  

 




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